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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Nos embalos de sexta à noite

Na terça-feira quando me foi dito que "eu teria que estar presente" num evento do escritório, em plena noite de sexta-feira, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi NO CU DE QUEM EU SOU OBRIGADO A COMPARECER EM QUALQUER COISA? que precisava providenciar um terno apresentável o quanto antes, e também dar um jeito no meu cabelo, que estava vergonhoso. Queria mesmo poder dizer que com a quantidade de resultados que eu apresento, minha aparência não importa tanto, mas a verdade é que isso é mentira. Sem meias palavras, em matéria de roupa, sigo a linha mulambento. E de repente eu precisava muito de um terno.

Não sou muito ligado nessa coisa de aparência e não tenho esperança nenhuma de algum dia ser reconhecido pela elegância de minhas roupas, não importa quantos anos eu viva. Mas se querem saber, também não perco o meu sono pensando nos comentários que pipocam pelos cantos sempre que apareço aqui no escritório de jeans e tênis meio fuleiro. "Tá vendo aquele sujeito cabeludo, todo desalinhado, parecendo um maluco? É o Edgar! Olhando assim você não dá nada por ele, certo? Pois é isso aí, ele não é de nada mesmo". Desculpa mãe, mas a senhora não criou um metrossexual. Minha vasta experiência nesse universo da vaidade masculina excessiva se resume em apenas ser cheiroso, aliás, naturalmente cheiroso – e de mais não sinto falta.

Comprar roupa, por exemplo. Não entendo como neguinho pode gostar de algo tão nefasto. Ficar perambulando de loja em loja atrás de uma coisa que preste, experimentando roupa pra ver se ficou bom, comparando preços aqui e acolá. Me recuso. Odeio acima de tudo vendedores me rodeando com aquele ar solícito "posso te ajudar em alguma coisa, senhor?", e eu com cara de cachorro que caiu da mudança, prestes a gritar por socorro.

Pra minha sorte eu sempre estive cercado de mulheres legais (mãe, irmã e namoradas) que nunca negaram fogo quando precisei daquele incentivo moral para comprar minhas roupas. Constatação: a minha vida de compras fica muito melhor quando estou com alguma mulher. Normalmente, essas criaturas já conhecem o meu gosto e me entendem quando digo que, se eu ainda compro roupas, é porque não posso andar pelado por aí (aliás, ninguém pode). Em meu favor, tenho a dizer que não dou sequer um pingo de trabalho a quem se dispõe a me ajudar. Falo sério. Sou daquele tipo que se deixar compra tudo em uma tacada só, e de preferência em uma única loja. Acho que esse comportamento ajuda a entender porque eu preciso de ajuda.

Certa vez, acho que há uns três anos, uma namorada me disse que eu tinha vocação para ser paxá. Na época eu desconhecia essa palavra esquisita (porque não sou obrigado, oras). Só mais tarde que eu fui descobrir o significado de paxá. E cá entre nós, acho que ela estava coberta de razão. Ainda mais agora quando penso nas circunstâncias em que se deu aquela conversa. Mas enfim, acontece que eu não sou paxá, e infelizmente a vida tem certas exigências, quase intoleráveis para quem poderia simplesmente dispensar esse tipo de chateação. E ultimamente eu ando mesmo comprando minhas roupas sozinho, afinal de contas não dá pra ficar dependendo dos outros para o resto dos meus dias. De vez em quando, vejo uma coisa que me agrada em cheio, então entro na loja, peço o meu tamanho, pago e pico a minha mula. Tento fazer isso sem fazer alarde, e o mais rápido possível, de modo a não ser soterrado por aquela dedicação profissional asfixiante.

Me lembro como se fosse ontem do dia em que eu saí de casa e minha mãe me disse "filho, vem cá, que roupa esculhambada é essa, você não está querendo ir trabalhar usando essa coisa, está?" Depois do sermão sobre a importância de se vestir bem para o trabalho, ela me chamou pra ver umas roupas sociais e acabamos comprando algumas camisas bem bonitas, feitas sob medida (dentre as quais uma merece destaque mais que especial: a camisa de linho azul que tinha um caimento impecável, e que durante muito tempo foi praticamente meu uniforme de trabalho, só que, como toda roupa que a gente gosta bastante, ela acabou bem rápido, provavelmente porque bastava aparecer no armário pra eu colocar no corpo, e assim, lavagem após lavagem, ela foi perdendo o viço, perdendo o carisma, ficando velha... e de repente, não mais que de repente, fiquei sem minha camisa social preferida, e fiquei muito triste também – este parênteses está enorme, mas é legal pontuar tudo só com vírgulas, agora sei como o Saramago se sentia, apesar de não ter sua competência, quiçá atinja-a um dia, e vamos fechar esta porra, que já encheu o saco). Resumindo: gostei tanto de comprar camisas naquela loja, de como os vendedores são inteligentes e tranquilos, que resolvi comprar o terno lá mesmo. Gastei uma nota preta, sim, porque absurdo é pouco! Mas o terno preto Zegna que acabei escolhendo (entre tantos ternos Armani e Brioni que não pude comprar) me deixou por demais satisfeito e preparado para frequentar as mais badaladas festas e as rodinhas da alta sociedade paulistana... uai, e porque não, né?

Depois de um longo tempo sem botar os pés num evento de arquitetura, com um copo de bebida na mão e uma vontade louca de ir embora na cabeça, comecei a socializar com aquelas pessoas (em sua maioria, desconhecidas) a fim de matar o tempo. Para mim, o mais difícil nessas festas é ter que fingir interesse e, de certo modo, prestar atenção naquele monte de profissionais de terno debatendo questões, trocando idéias e apresentando propostas desfiando um rosário de asneiras sem parar. Talvez exista uma classe mais patética do que projetistas de estante metidos a arquiteto, mas sinceramente é uma coisa que não faz bem pensar.

Agora, pessoas malas à parte, a festinha foi até razoável para um evento corporativo que tinha tudo pra ser chato à beça. Gostei muito da seleção de músicas que embalou os convidados, e em vários momentos achei que estava no meio de uma gravação do programa do Amaury Jr. A despeito do que eu estava esperando, e eu estava esperando uma tremenda aporrinhação, não foi uma perda completa de tempo. É claro que avacalhou total com a minha noite de sexta, mas em compensação eu tive a chance de estar com algumas pessoas boas que trabalharam comigo no escritório de São Paulo. Gente com quem eu não conversava há bastante tempo, e isso foi um presente. E também porque finalmente conheci o sujeito com o qual tive um arranca-rabo recente, por conta de uma parada errada que ele supostamente andou falando a meu respeito. No fim das contas achei o cara gente boa, ao contrário do que eu imaginava. Ou então o infeliz sabe interpretar que é uma beleza!


Eu juro que tentei pensar em uma legenda de verdade, mas...



Esqueci de falar que dei carona pro meu chefe até em casa. Pois então. Dei carona pro meu chefe até a casa dele. Pacote entregue, estava eu dirigindo tranquilamente, exausto depois de um dia cheio, quase chegando perto da minha rua, lá pelas 23h de uma sexta-feira gelada. Quando num certo ponto do caminho, eu vi uma moça na calçada. Cabelos amarelos, saia preta até a metade das coxas (respeitável, convenhamos) bolsa a tiracolo e um casaco todo branco. Ela andava de um lado pro outro, obviamente esperando alguém. Até aí, nada demais. Mas na hora em que chegou um carro, tchã-ram! A moça abriu o casaco. O que havia por baixo?

PEITOS!!!

Sim, é isso mesmo. Peitos! Sem sutiã. Sem blusa. Nada. Apenas peitos. Belos peitos, diga-se de passagem.

Em outros pontos da cidade pode ser comum esse tipo de anúncio por parte das moças de vida fácil. Aqui no bairro é a primeira vez que eu vejo. Fiquei assombrado. Isso é o que chamo de estratégia agressiva de vendas.