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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Teatro por quem não entende de teatro

No último fim de semana (mais precisamente no sábado) levei minha mãe para assistir a peça Viver Sem Tempos Mortos, monólogo interpretado por Fernanda Montenegro que está em cartaz lá no Teatro Raul Cortez.

Minha mãe deixou escapar a vontade de ir conferir essa peça em uma de nossas conversas durante a semana. Eu, bom filho que sou – aqui entre a gente, o preferido também –, me prontifiquei a fazer companhia. Minha mãe adora sair sozinha comigo e não esconde de ninguém essa informação. Só que eu também não escondo de ninguém o fato de que prefiro muito mais ir ao cinema em vez de ir ao teatro. Não gosto nem um pouco de teatro. Essa antipatia se deu por uma série de motivos, tantos que não faz sentido enfileirar todos aqui, mas o crucial é que eu costumo achar esse universo que circunda o teatro um negócio extremamente insuportável. Não me agrada o público. Não me agrada a abordagem. Não me agrada o preço. Não me agrada quase nada.

Mas a vida, amigos, é uma coruja muito matreira! E, por ser assim, eventualmente acontece de entrar em cartaz alguma peça importante com algum ator da importância de uma Fernanda Montenegro. Então de tempos em tempos me vejo voltando atrás no meu posicionamento e considerando a possibilidade de me submeter a tamanha aporrinhação (foi exatamente isso que pensei na última vez que botei meus pés em um teatro, só que naquela ocasião, fui fisgado pela Fernanda Torres e a peça era A Casa dos Budas Ditosos). E olha, mais uma vez, posso dizer que obtive sucesso na minha empreitada, pois Viver Sem Tempos Mortos valeu muito a pena.

O texto da peça é, no mínimo, foda pra caralho! Em linhas gerais, baseia-se na troca de correspondências entre o casal de filósofos franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Mas escrevendo dessa maneira, nesses termos, com essa falta de talento, pode até parecer que tudo se resume a uma besteira sem fim, a conversa mole pra boi dormir, quando na verdade o espetáculo passa muito longe de ser entediante. Mas sendo bem sincero, não estou muito a fim de escrever sobre teatro agora, não. Primeiro porque eu não sou crítico de teatro. Segundo porque considero muita petulância da minha parte ficar analisando isso ou aquilo sobre qualquer coisa que diz respeito à vida de Simone de Beauvoir, como se eu tivesse bala na agulha para tanto. E terceiro porque eu não quero, simplesmente. Vou fazer apenas um comentário sobre Fernanda Montenegro: eu queria entender o que é aquilo, aquela mulher só precisa de uma cadeira pra ser uma atriz perfeita, comprovadamente. Daí você pensa "pronto, mais um pra chover no molhado e dizer que a Fernanda Montenegro é a melhor atriz do país". Mas não tem jeito, porra, eu preciso ser repetitivo agora. Fernanda Montenegro é a melhor atriz do país. E em Viver Sem Tempos Mortos ela se deu o direito de exagerar na dose.

Agora voltando ao assunto "chatice que acomete pessoas que frequentam teatro", só que dessa vez de uma forma mais contundente. Minutos antes de começar o espetáculo, minha mãe e eu já estávamos devidamente acomodados em nossas poltronas. De repente, uma situação que se desenrolava perto de mim capturou minha atenção: um sujeito sentado na fileira da frente tagarelava sem parar na orelha do cidadão que estava ao lado (que curiosamente permaneceu em silêncio durante toda a conversa). Aquele chato falava pelos cotovelos e ficava citando um bocado de pensadores como se o outro cara estivesse mesmo dando a mínina pra quaisquer um deles. Num dado momento, o mala mandou essa: "Então, né, porque eu sou um ser humano... como é que se diz?". E eu tive que fazer um esforço quase sobrenatural para não meter o bedelho na conversa alheia e responder: "CHATO PRA CARALHO! O termo que você está procurando é CHATO PRA CARALHO!". Essa coisa de não mandar as pessoas tomarem no cu requer toda força de vontade desse universo e redondezas.

Kant, Heidegger, Kierkegaard, Montesquieu, Nietzsche, bando de bobos que não saberiam apontar quais são as grandes verdades da vida mesmo que elas estivessem de fio dental sapateando a macarena na frente deles.

Tudo besteira.

Afirmo isso com toda a segurança e tranquilidade de quem descende de uma linhagem de filósofos brilhantes, de quem nasceu na família dos maiores intelectuais que o mundo inteiro jamais conheceu. Gente profunda que investigou com madureza e precisão as grandes questões dessa vida, e de suas jornadas pelos labirintos da mente afloraram pensamentos que reconstroem a existência e a metafísica. Gente que ao invés de desperdiçar tempo lotando páginas com vocabulário obscuro, soube oferecer em poucas palavras reflexões profundas sobre a ambição da natureza humana, sobre saber ponderar os prós e contras antes de tomar decisões importantes, sobre as vantagens de enxergar além das aparências e sobre a importância de escolher o melhor caminho.

Do velho Mário, meu avô:
Antes rico e com saúde do que pobre e demente.

De Zuleika, minha avó e velha também, embora não admita:
Antes de bater o martelo nas questões importantes da sua vida não se esqueça de recolher os dedos.

Do velho Henrique, meu tio-avô mais sacana:
Quem come cara é travesseiro.

De João Antônio, meu saudoso pai:
Como se sabe, meu filho, o difícil nunca é o caminho mais fácil


Aí está toda a sabedoria acumulada durante séculos de vida calma e proveitosa. E mais que isso é ser prolixo.

1 comentários:

  1. Acho que a ideia não é pra ser “gostei” ou “não gostei” do texto, mas vou dizer que gostei muito, embora discorde do tom dele.

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