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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Do pó ao chá

Eu gosto muito de café. Gosto mais de café do que da maioria das pessoas. E essa coisa de gostar muito de café sempre ocupou um espaço importante na minha vida. Até bem pouco tempo atrás, estava tão viciado que chegava a tomar quase uma garrafa de café todo santo dia – às vezes uma garrafa e meia (e até mais, talvez).

É por apreciar tanto essa bebida que me sinto autorizado a dizer que, para mim, café é uma coisa tão absurdamente boa que tem ligação direta com momentos bobos e inesquecíveis da minha vida. Como a primeira lembrança que eu tenho de tomar café na casa da minha bisavó, reza a lenda que ela moía o café no pilão caseiro, COM MEL! Infelizmente o tempo se encarregou de apagar essa memória gustativa, mas ainda lembro que tomar café da tarde na casa da bisavó Elvira era quase sempre um acontecimento. E tem também o café sensacionalmente profissional que a minha mãe faz até hoje, que é tão sem igual que a empregada de Belo Horizonte costumava dizer que era preciso fazer curso para passar um café que estivesse à altura do café de dona Letícia.

O melhor café que se pode tomar é aquele bem fresco, forte na medida certa, sem maiores pretensões e sem o estrelismo de nomes metidos à besta, inventados apenas para que você esqueça que aquilo é pouco mais que uma grande enganação. O segundo melhor café é aquele do escritório que a gente toma depois de voltar do almoço, de preferência em pé e demorando um bocado de tempo até dominar a arte de usar aquele açucareiro confuso e pouco funcional.

Café é uma bebida mais que demais, sim. Só que apesar de ser essa coca-cola toda é importante deixar claro o quanto eu considero impossível todo esse processo que envolve o modus operandi de um café decente, um café minimamente aceitável, um café do jeito que eu gosto. Por causa da enorme dificuldade, e só por causa dela, semana passada comecei a fazer chá para tomar quando tenho vontade de beber café (ou quando o Toddy está em falta). O que mais me intriga na mudança repentina de hábito é que eu nunca fui chegado em tomar chá. Sempre achei que chá não passava de suco fervido. E cá estou agora, traindo o meu cafezinho velho de guerra.

Mas verdade seja dita, o modo de preparo de um chá é infinitamente mais fácil do que passar um café. O chá já vem praticamente pronto. Sem mencionar o fato de que existem lugares onde se oferece um tipo de chá muito especial pra gente beber gratuitamente. Vejam só que maravilha. Procurei me informar a respeito do Santo Daime com alguns praticantes desse lance, mas eles disseram que eu teria que me converter à doutrina e, como consequência disso, passar a frequentar centros e participar das sessões com o santo daime para só depois poder bebericar um pouco do chá alucinógeno. Não achei que seria um bom negócio. Então em face dessa quantidade absurda de obstáculos, resolvi escolher o caminho mais curto, o que significa dizer que comprei uma caixa de Matte Leão no supermercado.

Na Inglaterra, o famigerado "chá das cinco" é uma tradição nacional, sendo considerado como a bebida mais popular daquela birosca. O que se comenta é que os ingleses costumam misturar um pouco de leite no chá. Deve ser por causa de frescuras desse nível que não tenho um pingo de vontade de conhecer a terra da rainha.

No Japão, essa coisa de tomar uma xícara de chá é um ritual que faz parte de um universo levado muito a sério. Existe toda uma cerimônia complicada e minuciosa, cheia de códigos cerimoniais para se fazer o chá, uma parada que exige muito conhecimento de quem pratica e busca refletir o pensamento de que cada cerimônia do chá é única, nenhuma xícara de chá é igual a outra, nenhum momento é igual ao outro, e jamais poderá ser reproduzida. Eu tenho vontade de um dia participar de uma cerimônia do chá igual a cerimônia que acontece no Japão. Também seria legal conversar com alguém que conheça a fundo a história dessa tradição.

“Esse ‘chá’ se desenvolveu como um modo de vida — um meio de adestramento na busca da satisfação espiritual. Esse ‘chá’ era a chanoyu (a cerimônia do chá). Baseado na idéia de que nunca poderemos obter paz íntima sem um esforço deliberado no sentido de nos libertarmos dos cuidados e dos desejos mundanos, chanoyu (a cerimônia do chá) ofereceu-nos a chance de irmos além dos apegos do cotidiano e de sondar nossas raízes humanas. Ao assim proceder, chanoyu abraçou uma preocupação universal.” [O Livro do Chá – Kakuzo Okakura]

Aqui no meu mundo eu apenas coloco uma caneca de água para esquentar. Abro a porta do armário e pego a caixinha de Matte Leão. Separo a minha caneca. Penso em suricatos ébrios. Lembro meia hora depois da água que a esta altura deve ter evaporado completamente. Coloco o que sobrou da água na minha caneca. Mergulho um sachezinho de chá e o deixo ali por alguns minutos para saborizar o negócio. Enquanto espero, procuro me entreter com alguma coisa que não me faça perder a noção do tempo. E duas horas mais tarde, lembro que fiz chá, mas deixei esfriando num canto qualquer. Como vocês puderam notar é uma cerimônia que busca refletir algo que transcende a quietude dinâmica de integração craniossacral e a sagacidade embriagante do… certo, ainda não tenho nenhuma reflexão formada, faço apenas chá mate e por enquanto está de bom tamanho. Agora, o que foge do meu entendimento mesmo é o "mate" do Matte Leão ser escrito com dois tês.