Trabalho com a Adriele, uma japinha super gente fina, competente e divertida, dessas pessoas que você torce para que fique na sua vida por muito tempo. O que acho mais legal em trabalhar com a Adriele é estar perto do universo dela também – da casa de cinema japonês da família, em Taubaté; da mãe dela, dona Ayumi; de tradições milenares, uma vida que, às vezes, me parece possível só na casa dela –, mas sobretudo é ter a chance de ficar sabendo o quanto ela é hipocondríaca. Volta e meia ela me aparece, com aqueles dois olhos puxados, trazendo alguma panacéia made in Oriente. Semana passada comentei que estava sentindo uma dor nas costas e hoje de manhã fui apresentado a uns tais cogumelos tibetanos (tibicos). Segundo a propaganda que ela fez, esse treco é capaz de curar de um tudo, de feitiço e olho gordo a espinhela caída e bucho virado.
Isso me fez pensar coisas.
Desde que me entendo por gente eu escuto essa conversa de que tudo o que vem do Oriente é bom e coisa linda de deus. Acupuntura. Yoga. Sudoku. Shiatsu. Do-in. Pikachu. Agora me aparecem com uma solução mofada tentando me convencer de que, se eu mandar goela abaixo, isso vai curar até enfermidades que não tenho. Não que essas coisas não sejam boas, que não mereçam a confiança. O que me deixa com a pulga atrás da orelha é a ideologia por trás dessa crença generalizada: a de que a filosofia, as artes, as religiões, enfim, toda a vasta e milenar cultura oriental está infinitamente acima da nossa, em qualquer sentido. Eles seriam sábios e serenos, enquanto nós ocidentais nos perdemos no materialismo mais desprezível e ignorante.
Isso me fez pensar coisas.
Desde que me entendo por gente eu escuto essa conversa de que tudo o que vem do Oriente é bom e coisa linda de deus. Acupuntura. Yoga. Sudoku. Shiatsu. Do-in. Pikachu. Agora me aparecem com uma solução mofada tentando me convencer de que, se eu mandar goela abaixo, isso vai curar até enfermidades que não tenho. Não que essas coisas não sejam boas, que não mereçam a confiança. O que me deixa com a pulga atrás da orelha é a ideologia por trás dessa crença generalizada: a de que a filosofia, as artes, as religiões, enfim, toda a vasta e milenar cultura oriental está infinitamente acima da nossa, em qualquer sentido. Eles seriam sábios e serenos, enquanto nós ocidentais nos perdemos no materialismo mais desprezível e ignorante.
Talvez seja verdade. Talvez aquele antigo costume chinês de deformar os pés das mulheres para que fiquem pequenos seja realmente superior. Talvez aquele costume indiano de separar a sociedade em classes intransponíveis seja realmente superior. Talvez aquele costume japonês de elevar a honra e os valores acima da própria vida seja realmente superior. Talvez até aquelas perseguições e assassinatos existentes no "regime de terror" no Tibete sejam realmente superiores. E talvez aquelas partes boas do mundo ocidental, como a crença no valor absoluto da liberdade individual, sejam apenas um amontoado de bobagens inferiores a tudo isso.
Em tempos de multiculturalismo forçado, nada é impossível. Nada mesmo. Mas eu, mineiro lerdo que sou, e pouco me fodendo pra essas questões metafísicas e ideológicas, vou continuar aqui no meu canto, comendo pão de queijo e achando que uma relaxante sessão de do-in não se compara a uns poucos cafunés.