Páginas

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sobre como não saber cantar me faz idolatrar Andrea Bocelli

Quem me conhece um pouco pode dizer que tenho três grandes frustrações nessa minha indústria vital: uma delas é não ter um bigode maneiro, a outra é não tocar piano e a terceira é não saber cantar porra nenhuma.

Pelo menos em dois casos essa minha frustração deve-se ao fato de eu não ser um cara muito disciplinado (entenda: ser um preguiçoso de uma figa). Hoje em dia, devem existir inúmeras clínicas oferecendo esse tipo de tratamento – técnicas que ajudam no crescimento capilar da região do bigode e tal – e não demoraria um ano até poder ostentar um bigodão de dar orgulho. Mais complicado seria aprender a tocar piano... mas sem querer tomar partido, devo admitir que minha mãe é uma excelente professora, então duvido que eu não conseguisse aprender alguma coisa. E sendo bem sincero, não acho que demoraria duas eternidades até estar tocando com maestria, no mínimo, o tema do Danoninho. Agora CANTAR é onde a porca torce o rabo.

Não existe uma solução. Não vou aprender a cantar nunca, nem fodendo. Vamos trabalhar com a hipótese de que, sei lá, num acesso de teimosia, eu me matriculasse numa dessas escolas de canto. Talvez até conseguisse sair de lá cantando menos desafinado, mas tenho consciência de que jamais me tornaria um cantor de verdade. E os avanços que eu conseguiria, com toda certeza, não compensariam a desgraça que impingiria aos tímpanos dos outros alunos. E então que, para piorar a situação, eu lembro do Andrea Bocelli.

Acho que foi a Elis Regina que disse uma vez que se Deus cantasse, seria com a voz do Milton Nascimento. Eu discordo. Nada contra o Milton Nascimento, aliás, até gosto bastante das músicas dele, muito por influência materna (musicalmente falando, minha mãe o considera um gênio e adora conversar sobre ele). Mas em se tratando de Deus... a coisa muda um pouco de figura. Pode parecer tolice, mas às vezes, estou ouvindo uma rádio – ou assistindo um filme, ou vendo alguma coisa na televisão, ou passando em qualquer lugar que tenha música – e de repente começa a tocar uma música do Bocelli e acontece um lance meio esquizofrênico: eu preciso parar o que estou fazendo para prestar atenção. Para mim, parece que ele está falando comigo, querendo me dizer alguma coisa naquele momento, e não interessa se tem outras pessoas ouvindo também.

Qualquer ser humano minimamente versado em música erudita vai lhe dizer que Luciano Pavarotti era melhor cantor, tecnicamente. Vai incluir na lista uma série de outros tenores, como Plácido Domingo, talvez até Enrico Caruso. Mas esse sujeito, quando tocar no santo nome de Andrea Bocelli, vai jogar para o alto toda essa conversa de técnica e se desmanchar em elogios, quando não em declarações de amor. Se ele não fizer isso, dê as costas e saia andando. Numa boa, deixa esse sujeito falando sozinho, conversando com as paredes. Ele pode entender de música erudita, mas não entende de música que toca a alma. Aliás, não entende de gente também (não me espantaria se ele saísse por aí violando crianças indefesas, em obediência às vozes em sua cabeça). Trata-se de uma pessoa nociva e doente que deveria ser segregada, pelo bem da sociedade.

Mas então.

Vocês devem estar se perguntando porque diabos um cara (eu) que não tem competência sequer para cantarolar um reles "Parabéns pra Você" quer se meter a cantar justo igual ao Andrea Bocelli. A razão é muito simples, senhores: tenho uma tendência estrambótica de admirar, sobretudo, gente que faz o que quero fazer e não consigo. Admiro, por exemplo, o futebol do Zinedine Zidane porque NUNCA jogaria como ele, pelo menos não nessa vida (no fundo de minha pretensão, sei que conseguiria jogar como o Lionel Messi, e por isso não o considero essa Coca-cola toda). Também acho Oscar Niemeyer o máximo porque ele reinventou a Arquitetura.

Mas o caso do Andrea Bocelli é ainda mais insano. Porque ele tem aquele vozeirão cabuloso –  isso é algo que não se pode contestar –, mas não tem a técnica do Pavarotti. Então, repare que, em tese, é mais fácil cantar como Bocelli do que como Pavarotti. Agora tente. Tente passar em sua voz a melancolia que ele passa, mesclada ao mesmo tempo com uma doçura quase sem limites. Vai, tenta! Cante, com toda a verdade que você puder arrancar de dentro de si mesmo que "Chiudi dentro me la luce che hai incontrato per strada...".


Tenta, PORRA! Eu espero. Eu tenho tempo.