Ninguém é bocó de negar que existe uma infinidade de cenas emblemáticas no filme Clube da Luta. Mas para mim, uma cena em especial está acima de qualquer outra: aquela em que Tyler Durden (Brad Pitt) está dentro de uma aeronave e precisa passar por uma pessoa, num espaço limitado, e se depara com o seguinte obstáculo: passar por essa pessoa de ladinho e oferecer as costas para ela ou passar encostando a região genital. Segundo Tyler, uma questão de etiqueta:
“Now, a question of etiquette: as I pass, do I give you the ass or the crotch?”
Vivo isso quase que diariamente, uma porção de vezes. Não que eu tenha tomado gosto em ficar transitando por lugares estreitos, mas sempre que me vejo em algum aperto, outra pessoa também está (ser um cara dotado de altura tem dessas chateações). É tão inexplicável e hoje não foi diferente. Agora há pouco estava eu lá no caixa daquele mesmo supermercado (cujo nome não gosto de mencionar para não ceder merchandising de mão beijada, vocês sabem) pagando por minhas compras. No caixa do lado, estava um funcionário guardando as coisas de uma outra pessoa, de modo que não tinha muito espaço para sair daquele lugar. Por isso fui meio que obrigado a passar de ladinho pelo tal sujeito. Oras. Nada demais, esse tipo de coisa acontece com todo mundo. Meu único equívoco foi ter escolhido passar usando "the crotch".
Pois bem. Na hora que eu estava passando pelo cara que empacotava as compras, me veio em mente a supracitada cena de Clube da Luta e, consequentemente, me lembrei do Brad Pitt. Foi quanto bastou para eu pensar: "Que coisa gay". Então resolvi mudar de idéia (e de posição) o mais rápido possível. No meio do caminho, tentei substituir o "the crotch" pelo "the ass" e, sem pensar e sem querer, dei uma encoxada CONSIDERÁVEL no funcionário do Pão de Açúcar.
Algumas das pessoas que estavam presentes no local olharam com certo espanto para o acontecimento. O empacotador me pareceu estranhar a situação, mas continuou executando seu trabalho e resolveu fingir que não tinha sido com ele. Muito envergonhado pela minha falta de modos, tentei consertar a cagada com um pedido de desculpas. Mas aí existe uma outra questão a ser discutida: como se desculpar com alguém que está de costas para você e não pode se virar por falta de espaço? Responder não adiantaria, eu precisava de um movimento de corpo, um aceno, um sinal feito com a cabeça, qualquer gesto que representasse a minha absolvição.
Pensar rápido, é disso que eu precisava. Botei a mão no ombro do sujeito, dei uma esfregadinha de leve, seguida de três tapinhas cúmplices e fui embora. Acho que fui suficientemente claro.
É.
Pensar rápido, é disso que eu precisava. Botei a mão no ombro do sujeito, dei uma esfregadinha de leve, seguida de três tapinhas cúmplices e fui embora. Acho que fui suficientemente claro.
É.